sábado, 21 de novembro de 2009

DESENCANTO


Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

CURTAS E BOAS

Continua a IV Semana Cabense de Cultura, com uma programação diversificada e descentralizada.

Politicagem - Tire seu político do caminho - De domingo agora a oito


Jessier Quirino

A tal da politicagem?
É o acento circunflexo da palavrinha cocô
É feito brigar com um gambá
Pois mesmo o cabra ganhando
Sai arranhado e fedendo
É dirigir dando ré
O cabra tem três espelhos
E ainda olha pra trás
E pode prestar atenção:
Na boca do candidato é o mesmo Mané Luis
Trabalho, honestidade
Trabalho, honestidade
Por quê?
Porque o povo gosta de mentira!
Seu Manezinho Boleiro
Suplente de merda viva
Foi dar uma de sincero
Dizendo o que pretendia
Trabalhar de terça à quinta
E roubar só o normal
Teve uma queda de votação tão pra baixo
Que até hoje ainda é suplente
Taí, fila da puta!
Tire seu político do caminho
Que eu quero passar com o eleitor
Hoje, pra esses peste eu sou Chiquinho
Fí de Seu Chico aboiador
Mas amanhã sou Chico véi que não dá trégua
Assim, táqui pra tu, fí duma égua
De domingo agora a oito
É dia de eleição
É dia do pleiteante
Do fundo do coração
Perguntar: o que desejas?
A quem tem de louça um caco
De terra só tem nas unhas
E mora de inquilino
Numa casa de botão
De domingo agora a oito
É dia “arreganha-cofre”
É de ajudar os que sofrem
É dia do estende a mão
E se agarrar com farrapos
De mastigar vinte sapos
E não ter indigestão
É dia de expor na fala
Que bem conhece o riscado
Ninguém come mais insosso
Ninguém bebe mais salgado
De domingo agora a oito
Não relampeja e nem chove
É o dia que nos comove
É o grande dia “D”
Agora, o dia “fuD”
Vai ser de domingo à nove

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A VOZ DA RESISTÊNCIA


Antonino Oliveira Júnior

Vai, Voz Negra,
sobe bem alto no espaço,
rompe também outros laços
pelas terras onde passares,
lembrando que escravo é rei
no Quilombo dos Palmares

MINHA HISTÓRIA


Chico Buarque

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente,

Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto,

Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré,

Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor.

Minha história e esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus.

LUIZA


Tom Jobim

Rua,
Espada nua
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração
Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza

OS DOIS TEMPOS DA CIDADE

Antonino Oliveira Júnior

Estou em pé, bem em frente à Igreja matriz. O olhar fixo rumo à estação ferroviária observa o burburinho enlouquecedor de pessoas, carros e motos, em idas e vindas que mais lembram trilhas de formigas a carregarem seus fardos de sobrevivência. Era a antiga rua Antonio de Souza Leão, hoje entregue ao comércio. A rua de seu Alcides, seu Claudino, seu Zequinha da Modelo, de seu João Lopes, do bar de Leo. Ninguém conhece mais ninguém. Ninguém consegue parar. Conversar, nem pensar...mas, ali, eu passava devagar, com meus amigos, vindo do Luisa Guerra e depois do Santo Agostinho...ruas vazias, quietas. As pessoas formigas continuam subindo e descendo.

Viro um pouco o corpo e a rua da matriz e a mesma agonia, o burburinho do desce e sobe, dos locutores das lojas. A rua de seu Catarino, da farmácia de seu Chico, seu Joel Alfaiate, a rua de seu Pipiu, seu Duca, de dona Cecita, a casa de seu Tune, de seu Figueiredo, a rua de tanta gente...tá lá um corpo estendido, crivado de balas, a moça que apanha do “seu amor” madrugada a dentro, aos gritos, na minha rua, a rua do garrafão, do barra-bandeira, do cine Santo Antonio, nossa diversão maior...

O burburinho continua, ninguém sabe quem é ninguém e eu, em pé, olhando o cenário, ora virado para a estação ora virado para a igreja de Santo Amaro. Aquela mesma rua que foi a passarela dos poemas de Theo Silva, as noitadas de Epitácio Pessoa, as serestas, os desfiles ingênuos do sete de setembro.

A minha rua, com um corpo jovem estendido no chão, fuzilado. É só um jovem dos muitos sem assistência, sem lazer, sem horizontes, presa fácil das drogas, destino das balas. A mesma rua do eu menino, com meus amigos, sem medos, sem traumas. Olhei novamente para tudo e senti saudade de mim.

Antonino Oliveira Júnior
É escritor, poeta e membro
Da Academia Cabense de Letras